segunda-feira, 8 de setembro de 2008

MEMORIES FOR DAILY USE




MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO
94`/ 2007/ Doc
Produção-executiva Roteiro e Direção: Beth Formaggini
Realização 4Ventos e GTNM-RJ
Apoio: Uniao Europeia

Sinopse:

Nosso fio condutor é Ivanilda, que durante 31 anos procurou nos arquivos sinais do seu marido desaparecido político. Suas idas e vindas se trançam com as ações de militantes e parentes das vitimas da ditadura e da violência policial dos dias de hoje que vão desvelando outros fios pelas ruas e cemitérios clandestinos do Rio. Eles pertencem ao Grupo Tortura Nunca Mais /RJ e interagem entre a lembrança traumática e o esquecimento no trabalho de trazer à tona a memória de fatos recentes, revelando a seletividade da história oficial e de construir uma memória política. Pensam o passado para que se possam libertar o futuro dos fantasmas que ainda nos perseguem no presente.

Sinopse inglês:

MEMORIES FOR DAILY USE

Ivanilda searches for evidence proving her husband, missing since 1975, was arrested by the government. Romildo is looking since 1973 for the body of his brother, in a cemetery on the outskirts of Rio. Leda visits the street named after her son, murdered by the military dictatorship, so that his name may never be forgotten. Mothers cry for their children, recently murdered by the police in the favelas. They belong to Tortura Nunca Mais group in Rio de Janeiro. Torture still haunts the families who have not had the chance to bury their loved ones. They interact between remembrance, traumatic oblivion and citizens' rights - the work of bringing to view the memory of recent facts, unveiling the selectiveness of official history. It' about the construction of political memory. Thinking the past, so that we may liberate the future from the ghosts that still haunt our present.

Prêmios e festivais percorridos:

Melhor Documentário Júri Popular Festival Internacional de Cinema do RJ 2007; Melhor Documentário Júri da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta Metragistas /RJ no Festival Internacional de Cinema do RJ 2007 ; Seleção Oficial Mostra Internacional de Cinema de SP 2007; Seleção Oficial Mostra Internacional Do Filme Etnográfico 2007; Seleção Oficial Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá 2008; Festival de Cinema Comunicurtas de Campina Grande- Paraíba 2007; Vitória CineVideo na UFES, Cine Metropolis, Universidade Federal do Espírito Santo 2007 ; Seleção II Mostra de Cine y Direitos Humanos da América do Sul – 2007 exibido no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasilia, Belo Horizonte, Belém, Porto Alegre, Recife , Fortaleza. ; Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana, Cuba 2007, Festival de Cinema de Cuiabá 2008.

O filme teve diversas exibições acompanhadas de debates com a participacão de membros do GTNM/RJ e da diretora. No Brasil foi exibido : na Escola Técnica da FIOCRUZ, RJ; no Cineclube Aquiry do Núcleo de Produção Digital em Rio Branco, Acre; no Cineclube ABDEC na “Casa de Rui Barbosa”, RJ; “Circo Voador”; na II Jornada de Direito da PuC , no Caco da UFRJ; no “Curso de Extensão Direitos Humanos em Tela na UERJ, no Núcleo de Políticas Publicas para os Direitos Humanos, NPPDH, UFRJ; no Cine Teatro do Museu Imperial de Petrópolis, Petrópolis.
E no exterior: no Dockanema – Festival de Documentários de Maputo, Moçambique, Latin American Center, UCLA, Los Angeles, EEUU; no Centro de Estudos latino-americanos Universidad da California Berkeley,EEUU, no VI Congreso Internacional de Salud Mental y Derechos Humanos, organizado por Asociación Madres de Plaza de Mayo, Buenos Aires, Argentina e na Muestra de "Cine que Piensa", del Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana, Cuba.


Memória Para Uso Diário,
de Beth Formaggini (Brasil, 2007)
por Rodrigo de Oliveira

Arquivos, como antes eram porões

Memória Para Uso Diário, e o nome não podia ser melhor. Mais que um filme para forçar o acesso emotivo a um passado coletivo submerso e dar voz a vítimas que se tornaram heróis, este é um projeto lindamente pragmático em sua militância: entre as diversas calhordices cometidas contra os revolucionários antiditadura militar e suas famílias, a mais grave foi certamente o apagamento da dimensão visível de sua história, e se há reparação possível, ela só pode se dar pelo “uso diário” do que sobrou desta gente – sua imagem, seus nomes, os signos associados a eles.

Em algum momento do filme, vemos uma parente de um dos militantes assassinados pelo regime falar sobre a perversidade embutida na invenção da expressão “desaparecido político”. É contra esse apagamento que Beth Formaggini investe, e o faz pelo desmascaramento, antes de tudo. A ditadura, como o cidadão brasileiro médio a conheceu, era a das imagens icônicas e da propaganda nacionalista institucional, largamente apresentada no prólogo do filme: não apenas os diversos cartazes e slogans repetidos à exaustão pelo regime, mas também a ostentação da caça e prisão dos vários “terroristas”, alardeadas nos jornais e na tevê como se aquele fosse um ambiente de faroeste, um “procura-se vivo ou morto” onde o rosto de um perseguido só tinha serventia até que ele fosse capturado – depois disso, o limbo, a morte secreta e o desaparecimento.

Uso diário é a experiência cotidiana desta memória, a ação corriqueira que nem por isso deixa de carregar todos os sentidos emocionais e políticos de que está preenchida. Numa das seqüências mais impressionantes do filme (e impressionante justamente por mostrar o caráter habitual da lembrança, e não o grande alarde profundo e pomposo que projetos dessa natureza costumam ter) acompanhamos a visita de Romildo a um cemitério no subúrbio carioca onde se suspeita que seu irmão tenha sido enterrado. Com a ajuda de uma amiga e também ex-militante, o homem começa a listar, de cor e com nome completo, dezenas de pessoas que faziam parte do mesmo aparelho de guerrilha do morto, montando um quebra-cabeça de identidades perdidas que surgem com a naturalidade de quem fala de amigos de infância. Romildo e a amiga não conheceram a maior parte daquelas pessoas em vida, e a única ligação que mantém com elas é a coincidência de terem participado junto com o irmão da luta armada. A memória é superficial e posterior, como a nossa, espectatorial, mas diferente de nós (e do filme), um nome dito é mais que a estampa de uma época, ele é o próprio reaparecimento, a alcunha perversa se desfazendo em nome do presente destas pessoas, mesmo que apenas oral e corriqueiro.

É assim, no limite de sua própria inviabilidade, que Memória Para Uso Diário vai se equilibrando. Porque há algo na sobrevivência dessa lembrança que está marcado por um irremediável senso de história íntima que nem todo o caráter coletivo da luta revolucionária pôde superar. Quando Tânia Roque visita a escola que leva o nome de seu marido morto pela polícia da ditadura, vemos uma celebração da figura de Lincoln Bicalho Roque que é marcada pelo reconhecimento emocionado para a família, enquanto nunca perde a sensação de valorização de uma ausência e de um vazio para os pequenos alunos e suas professoras. As crianças carregam faixas com o nome do militante, cantam enfileiradas o hino da escola, que exalta sua luta, fazem perguntas no microfone sobre quem foi e o que fazia aquele homem, mas, no fundo, nunca assumem estes discursos e essa celebração como sua propriamente.

Ponto de não-retorno definitivo é quando o filme leva um grupo de familiares dos desaparecidos pelas ruas de um bairro carioca para buscar endereços e placas que homenageiem ex-guerrilheiros (encontram no caminho, por exemplo, uma Praça Lamarca, ironicamente abandonada ao capim pelo poder público). É quando a mãe de Marcos Nonato da Fonseca encontra a rua com o nome do filho, mas, com uma placa enferrujada que impede o reconhecimento do nome, recorre a alguns dos moradores curiosos do lugar para que lhe dêem uma conta de luz que comprove a homenagem. Com a conta na mão, a mulher se dirige à câmera e mostra orgulhosa o nome do filho, enquanto um abismo se cria com o fundo do quadro, onde os moradores ainda não sabem direito do que se trata aquele fuzuê todo, e talvez nunca venham a saber ou se interessar. Não há chamado à memória e ao exercício da reparação que Beth Formaggini e o Grupo Tortura Nunca Mais (financiadores institucionais do filme) possam fazer sem que se esbarre neste abismo. A clandestinidade é a única marca da luta antiditadura que resistiu ao tempo, porque essa memória também é clandestina e, independente dos esforços de ambas as partes, ainda inviável.

Em Memória Para Uso Diário utiliza-se a estratégia do nome completo e do retrato 3x4 das vítimas, reforçados pelos letreiros finais que listam todos os ditos “desaparecidos políticos” do país, e ainda assim esta é apenas uma personificação de segunda ordem. É uma fissura da própria sociedade brasileira e sua incapacidade de lidar efetivamente com o período militar que acaba se espalhando para o cinema, do qual o filme de Formaggini acaba não deixando de ser um louvável retorno à regra. Não houve julgamento dos torturadores, não se prenderam os responsáveis pelas mortes, e as vítimas vão sendo indenizadas na surdina, em processos lentos e financeiramente desproporcionais. Do mesmo modo, este cinema brasileiro que fala da ditadura nunca conseguiu nem sequer levar a cabo a máxima godardiana de que as vítimas são sempre filmadas de frente, enquanto os carrascos aparecem sempre de costas.

Este acordo tácito pelo esquecimento torna mesmo a filmagem das vítimas um problema – e não só porque, como neste caso, o que resta delas é um retrato ou uma placa de rua. Mais do que a forçosa relação entre os desaparecidos dos 60 e os desaparecidos dos 2000, que o filme faz ao propagandear as ações do Grupo Tortura Nunca Mais contra o abuso policial sobre jovens da periferia e das favelas cariocas, o que Memória Para Uso Diário faz de realmente novo e instigante sobre esta relação do país com seu passado é filmar não os personagens da tragédia, mas seu depositário. Em poucos planos dos arquivos públicos nacionais onde uma viúva tenta buscar provas de que seu marido foi morto pelo Estado e, portanto, merece uma pensão do governo, vemos finalmente materializado todo o horror da desimportância que tanto a ONG como o filme tentam combater. Confusos, sujos, improvisados, escuros, os arquivos são o retrato mais fiel da falta de retrato: pastas e mais pastas com nome completo e eventualmente fotos dos mortos e desaparecidos, sem que isso possa garantir que as histórias guardadas ali possam um dia ser verdadeiramente ouvidas e revisitadas.

Abril de 2009

3 comentários:

4Ventos disse...

Para ver o trailler acesse:
http://br.youtube.com/watch?v=MSTsRamHOqA

4Ventos disse...

http://blog.andrei.bastos.nom.br/2007/07/29/memoria-para-uso-diario/
· É incrível como a grande imprensa que colaborou com a ditadura (Globo, Veja e afins) tende a minimizar o que ocorreu.
As vezes eu ouço: “centenas de pessoas desapareceram ou morreram…”
“Centenas”??? Tenho certeza que no Brasil os desaparecidos e mortos chegam a casa dos milhares.
Documentários como esse ajudam a esclarecer às novas gerações sobre esse triste período que assombrou nossa história.

http://oicult.blogspot.com/2008/07/memria-para-uso-dirio-dor-silncio-e.html
José Rodrigues (JR.) disse...
A equipe clinica grupal do Tortura Nunca Mais é uma aposta no uso da prática clinica como um importante dispositivo produtor de outras histórias; outros caminhos e modos de existencia. Porem, para muitos que sofreram com as torturas direta ou indiretamente praticas pelos militares, dar um passo a frente não é tão simples.
A ditadura brasileira compôs uma verdadeira máquina de produção de subjetividades submissas e vidas despotencializadas. Tal aparelho, munido das mais variadas tecnicas de tortura e intimidação, não foi capaz, de por si proprio, calar toda uma geração.
Hoje em dia, onde está o inimigo a ser enfrentado? onde estão os instrumentos de coerção? onde estão os agentes do silenciamento e os soldados da dor? onde estão as vitimas? Parece que uma nevoa sorrateira e descompromissada paira sobre o horizonte tornando o discernimento de suas linhas e das figuras que por ele transitam uma tartefa ardua.
A impressão é que em nosso tempo - do presente continuo (hobsbawn)- nos tornamos cegos por vermos demais. Nessa sociedade dita de espetaculo o mar de imagens que nos atravessa tambem nos carrega em suas mares bravias quase nos afogando com suas ondas multicores.
Hoje, muitas são as questões a serem feitas; muitos são os problemas a serem colocados em analise; inumeros são os métodos de pesquisa e de investigação. Porem, a pergunta que é um sussurro quase um grito é, para mim, como é possivel viver como vivemos? como nos tornamos tão descrentes de nossas proprias vidas? como aceitamos naturalmente tantas miserias e dor? para tentar responder a estes "como", o uso da história é fundamental.

abraço,
15 de Setembro de 2008 07:58

http://videolog.uol.com.br/video.php?id=390578
1. jr escreveu:

Belo video,felizmente não vivemos mais a ditadura
militar......mas as consequencias forão
irreparaveis
01/12/2008 às 17:40:10
http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1660
PUXAR PELA MEMÓRIA

Por CARLOS ALBERTO MATTOS
27/12/2008

Memória para Uso Diário nasceu como um institucional do Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, e assim percorreu o circuito não comercial. A versão que agora chega aos cinemas, com 80 minutos, se não perdeu inteiramente o aspecto original, ganhou ressonância maior como balanço de um período. Não o período da ditadura, evocado com impacto e ironia na abertura do filme. Mas esses 23 anos em que um grupo de ex-militantes e parentes de vítimas da tortura lutaram contra o esquecimento e a inaceitável condição de “desaparecidos”.

O doc se estrutura como uma espécie de jogo da memória. As peças vão sendo apresentadas e recobertas desde o início para ressurgirem mais adiante. É como se o espectador fosse convidado a montar o filme em sua memória. O recurso, se por um lado pode gerar dispersão, por outro desafia o público a se mover naquele mosaico de histórias que vão sendo exumadas pelos entrevistados. Poucas, aliás, são as entrevistas de fato. A diretora e roteirista Beth Formaggini optou por reunir duplas que se ajudam mutuamente a lembrar. Com isso, o filme recupera a própria essência do trabalho do GTNM: lembrar, puxar pela memória – sua e dos outros –, fixar nomes, dados e recordações que afastem as nuvens do esquecimento.

Numa das melhores cenas do filme, um grupo de ativistas chega a uma rua de subúrbio chamada Marcos Nonato Fonseca. A placa está tão enferrujada que não se pode ler o nome. Os moradores não têm idéia de quem foi Marcos. Uma das visitantes, bastante emocionada, pede a uma moradora que traga uma conta de luz, qualquer coisa onde o nome de Marcos, seu filho, apareça claramente. O papel é então exibido com doloroso orgulho para a câmera, como um conforto mínimo e simbólico.

Memória para Uso Diário tem o mérito adicional de reunir um ótimo material de arquivo, sobretudo reportagens de TV (algumas inéditas até então) sobre a descoberta de valas clandestinas e ossadas de desaparecidos, a abertura de arquivos etc. Na edição, esse material é valorizado pelo uso impactante da tela negra em conjunto com as sonoridades do bruxo Aurélio Dias.

O filme enfoca ainda uma atualização do trabalho do Tortura Nunca Mais no apoio a parentes de vítimas da polícia em favelas. Se a pertinência humanitária dessa atuação é indiscutível, o mesmo não se pode dizer de um discurso que faz paralelos entre o combate a traficantes de hoje e a repressão a militantes políticos de ontem. Nem considera que muitas vítimas do tráfico perecem pelas mãos de traficantes rivais. É quando as razões se perdem no proselitismo.

Mas isso é uma posição de membros do GTNM. Ao filme de Beth coube veiculá-la e, assim, trazê-la à discussão.

Rodrigo disse...

Crítica minha publicada sobre o filme na Revista Cinética:

http://www.revistacinetica.com.br/memoriaparausodiario.htm